Artistas

Quinta-Feira, 24 de maio

Centro Cultural Dom Dinis, 19h

Open Field String Trio + Carlos “Zíngaro” (Portugal)

João Camões viola d´arco | Marcelo dos Reis guitarra | José Miguel Pereira contrabaixo

Carlos “Zíngaro” violino

Formação de características idiossincráticas, quer pela sua constituição instrumental, quer pelos resultados sonoros obtidos, o Open Field String Trio tem vindo paulatinamente a dar-se a conhecer e a marcar terreno nos domínios da livre improvisação em Portugal. Fundado em 2009, o trio tem obtido um reconhecimento crescente, escapando a catalogações simplistas e assumindo frontalmente uma atitude de pesquisa no que concerne à exploração e manipulação – muitas vezes poucos convencionais – das potencialidades expressivas dos três instrumentos utilizados (viola d’arco, guitarra e contrabaixo), sejam as cordas ou as superfícies de madeira, arranhadas ou percutidas. João Camões, Marcelo dos Reis e José Miguel Pereira são os vértices desta geometria pitagórica onde se cruzam elementos oriundos de diferentes tabuleiros estéticos, sejam eles os da música contemporânea, do jazz de feição mais aventurosa ou da improvisação livre.  O valor do trio já foi destacado por nomes grados da cena internacional, como são os casos do visionário multi-instrumentista norte-americano Elliott Sharp, do pianista Burton Greene e do clarinetista italiano Renato Ciunfrinni. Ao longo do seu trajecto, o trio já teve ensejo para apresentar o seu trabalho dentro e fora do País, destacando-se actuações em Praga, Brno, Lisboa, Coimbra, Portalegre e Figueira da Foz, entre outros locais. Um sério compromisso com os valores da espontaneidade, da liberdade e da entrega à sua arte são ingredientes com que certamente poderemos contar nesta apresentação do Open Field String Trio, que contará com a participação especial desse superlativo improvisador que é Carlos “Zíngaro”.

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sexta-feira, 25 de maio

Mosteiro de Santa Clara–a-Velha, 19h

Carlos “Zíngaro” solo (Portugal)

Carlos “Zíngaro” violino

Se é indesmentível que Carlos “Zíngaro” é o mais consagrado e internacional dos improvisadores nacionais, não é menos verdade que o músico é mais reconhecido e valorizado fora de portas do que na sua terra natal. Com estudos clássicos e nas áreas da musicologia, da música electro-acústica e da música contemporânea, nomeadamente na Universidade Técnica de Wroclaw (Polónia) e na Creative Music Foundation (Nova Iorque), foi pioneiro do free jazz, do rock psicadélico e da electrónica “live” em Portugal, tendo sido responsável pela introdução em terras lusas de novas tecnologias na composição em tempo real. Apesar de influenciado por históricos do violino como Paganini, Béla Bartók e Shostakovich, a sua atitude muito particular perante o cordofone aproxima-se, muitas vezes, da prosseguida pelos instrumentistas de sopro. John Cage, Jimi Hendrix e Ornette Coleman são outras das suas referências centrais. O seu vasto e riquíssimo percurso musical, já com quatro décadas, mais de cinquenta discos editados e inúmeras distinções internacionais, tem vindo a ser marcado por constantes ligações a outras formas artísticas, como as artes visuais, a dança contemporânea, o teatro, e por uma sempre renovada busca pela expansão de horizontes musicais. Tem-se apresentando em muitos dos mais relevantes festivais de música improvisada e de “nova música” um pouco por todo o mundo, seja a solo ou integrando formações ao lado de nomes fundamentais nestas áreas, como Anthony Braxton, George Lewis, Steve Lacy, Evan Parker, Peter Kowald, Richard Teitelbaum, Derek Bailey, Fred Frith, Joëlle Léandre e Otomo Yoshihide, só para nomear alguns. Esta sua apresentação a solo constituir-se-á como uma extraordinária oportunidade para escutarmos a forma como interagirá com a ambiência única do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha.

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sexta-feira, 25 de maio

Teatro Académico de Gil Vicente, 22h

Hugo Carvalhais Nebulosa com Dominique Pifarély e Emile Parisien

Apresentação do novo disco Particula


Hugo Carvalhais contrabaixo | Gabriel Pinto piano | Mário Costa bateria

Dominique Pifarély violino | Emile Parisien saxofone soprano

Em 2010, Hugo Carvalhais fez a sua entrada com estrondo no panorama jazzístico nacional, demarcando-se, desde logo, de larga fatia da produção lusa neste domínio. “Nebulosa”, o disco de estreia do contrabaixista e compositor portuense, até então quase desconhecido, foi distinguido como um dos discos desse ano pela revista jazz.pt (constando ainda em várias listas internacionais), chamando a si uma plenamente justificada atenção. Deu-se então a conhecer um músico talentoso, de ideias livres e originais e com um percurso autodidata, avesso a academismos. Formado em Pintura pela Faculdade de Belas Artes do Porto, estudou contrabaixo com nomes de peso como Ron Carter, Eddie Gomez, Mario Pavone, Miroslav Vitous, Omer Avital, Mario Rossy, Rufus Reid, Carlos Barretto e Carlos Bica, entre outros. Em Coimbra, Hugo Carvalhais apresenta o seu segundo disco, intitulado “Particula”, também com selo Clean Feed. Nele, Carvalhais amplia as suas capacidades como compositor e improvisador de primeira linha, dando passos consistentes na afirmação de um universo sonoro peculiar e que finta arrumações estilísticas. Nas notas de capa de “Particula”, Stuart Broomer sublinha que Carvalhais “cria música quase sem género, tomando os materiais disponíveis na música contemporânea para a sua paleta de composição”. A seu lado permanecem os habituais cúmplices – pilares fundamentais para dar corpo sonoro à visão musical do líder –, o pianista Gabriel Pinto e o baterista Mário Costa. A formação estende-se com a participação de Dominique Pifarély no violino e Emile Parisien no saxofone soprano. Pifarély combina sonoridades evocativas de Grappelli com explorações de vanguarda. Após ter tocado com a Mike Westbrook’s Band e a Vienna Art Orchestra mantém parcerias com músicos relevantes como Louis Sclavis e Marc Ducret. Parisien já é uma certeza do saxofone gaulês, integrando formações importantes, como são exemplos o “New Reunion Quartet” de Daniel Humair e um trio com Jean-Paul Celea e Wolfang Reisinger. Motivos de sobra para a fasquia da expetativa estar lá bem no alto.

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sábado, 26 de maio

Teatro Académico de Gil Vicente, 21h30

Atomic (Suécia/Noruega)

Fredrik Ljungkvist saxofones | Magnus Broo trompete | Håvard Wiik piano

Ingebrigt Håker-Flaten contrabaixo|  Paal Nilssen-Love bateria

Quando, em 2002 e 2003, os Atomic lançaram os seus dois primeiros álbuns de estúdio – “Feet Music” e “Boom Boom”, respetivamente – logo alguma crítica se prontificou a afirmar que o grupo havia surgido como resposta a uma certa ideia de jazz nórdico, sobretudo o ligado à ECM. Se tal conceção é manifestamente redutora, não deixa de ser verdade que este consórcio escandinavo desenvolve um som próprio que em muito se afasta da estética prosseguida pela editora alemã. Fazendo a ponte entre o free-bop norte-americano e elementos característicos do jazz europeu, o quinteto equilibra o rigor e a elegância das suas composições (democraticamente repartidas, todos são líderes) com uma intensidade e um espírito de celebração verdadeiramente notáveis. Na realidade, o grupo nunca escondeu a sua profunda admiração pela obra de gigantes do jazz como Duke Ellington, Charles Mingus, Archie Shepp e George Russell, assim como as influências do free jazz e das músicas contemporâneas e improvisadas do velho continente. Para os Atomic estas influências são tidas como fonte de inspiração e posicionamento próprio e não como balizas ou restrições de qualquer espécie. Distanciando-se do tal estereótipo de uma música fria e cerebral, o som do grupo é indelevelmente marcado pela inventividade, por uma forte atração pelo risco e pela experimentação, seja destilando uma potência rock, alimentando grooves abstratos ou explorando lirismos angulosos. Uma música de contornos vincadamente urbanos, feita de contrastes emocionais (da explosão à calma mais oblíqua) e onde fica patente um forte sentido de coletivo. Nesta mais de uma década que levam de atividade, os Atomic já lançaram uma dezena de discos, tendo empreendido diversas digressões pela Europa, Estados Unidos e Japão. Não obstante, os cinco músicos repartem a sua atividade por uma miríade de outros projectos. Não serão necessários abrigos, mas a energia fluirá a rodos.

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quinta, sexta e sábado, 24, 25 e 26 de maio

Salão Brazil, 23h30

Trespass Trio + Joe McPhee (Suécia/Noruega/EUA)

Martin Küchen saxofone alto | Per Zanussi contrabaixo | Raymond Strid bateria

Joe McPhee saxofones e trompete

A constituição instrumental deste Trespass Trio não deixa de trazer à memória os trios de saxofone, contrabaixo e bateria (com o de Sonny Rollins à cabeça) que brotaram no período mais fértil do hard-bop e que o free jazz dos anos 1960 não desdenhou. Os dois terços suecos (o saxofonista Martin Küchen e o baterista Raymond Strid) e o terço norueguês (o contrabaixista Per Zanussi) aliam-se para formar um trio sinérgico e que denota, mais do que uma mera soma de contribuições individuais, uma vincada personalidade coletiva. É aquele período que o jazz visceral dos Trespass Trio recontextualiza e ao qual acrescenta elementos oriundos de outros domínios musicais. Altos níveis de energia e um fulgor rítmico ancorado em sonoridades africanas ancestrais (estudadas aturadamente por Küchen) são características marcantes na sonoridade deste trio. Outra marca identitária da formação é a postura agitadora e politicamente interventiva de Küchen, saxofonista de mensagem, como poucos o serão na atualidade. Menos políticos, mas musicalmente militantes, Zanussi e Strid formam a dupla rítmica ideal para as intervenções do soprador. Os três músicos apresentam percursos bastante ricos e diversificados, com o denominador comum da predileção pelas chamadas músicas “não-idiomáticas”, o que abre um amplo leque de caminhos possíveis. Se o saxofonista se tem destacado nos domínios de uma certa estética reducionista, o contrabaixista é um líder de predicados reconhecidos em diversas formações. Já o baterista é tão-só um dos mais interessantes que o jazz e a música improvisada europeus conheceram nas últimas décadas. A música telúrica do Trespass Trio poucas vezes envereda por territórios de maior abstração ou técnicas menos convencionais, preferindo centrar-se num som mais directo, desafiante e urgente, tantas vezes assente num groove poderoso, bem patente no excelente “… was there to illuminate the night sky…”, de 2009. Nesta apresentação coimbrã o trio alarga-se a quarteto com a participação de um convidado de luxo, tantas vezes injustamente subvalorizado, o multi-instrumentista norte-americano Joe McPhee. Nome de proa de um free jazz mais politizado, na esteira das intervenções pelos direitos civis de Martin Luther King e Malcolm X, McPhee é um dos mais importantes músicos de jazz em atividade. Razões de sobra para não perder este concerto, que será gravado para posterior edição discográfica.